Textos
-(—- Textos
Textos são incorporações
Relatos e contos
Analogias e sentimentos
Vírgulas e pontosSão o meu eu descrito
Bem longe do que é discreto
Fosse artigo definido
Ciência de experimento secretoE também, há de se dizer
Não conversam, mas se expõem
Monólogos frente ao infinito
Não se limitam ou se opõemPor definição, conjunto de palavras
Palavras seres e assuntos diversos
Permutações sintáticas e semânticas
Compactadas em poucos versosPessoas poderiam ser textos
Serem lidas e entendidas
Talvez fosse agradável
Mas qual seria a graça
De sentir o explicável?—-)-
Musa. DCLXVI
Eu
Apenas eu.
-(—- Eu
Fazia um tempo que eu não sorria
Que não achava graça do quanto sou estúpido
Rir um pouco dos antigos medos
E apenas curtir intrépidoVontade de compartilhar meu sentimento
Abraçar até uma porta em meu caminho
Ser inanimado fora de desenhos animados
Mas ainda posso desabafar carinhoSó me faltou um brinde regado a amor
Eufemismo pra álcool, é óbvio
Pois fui inabalável até que me abalaram
E segui sem respiradas de alívioA existência se mostrou tão opcional
Que nem todo semblante se formou perfeito
Vultos conjugados com imaginação
Estranhas piscadelas, tiques e trejeitosNo momento, eu só quero eternidade
Como se fosse simples um pedido assim
Tanto faz se não é realmente eterno
Mas cada segundo está sendo infinito pra mim—-)-
Musa. DCLXVI
Olhos Mortos
Pink Floyd, cigarro e preocupações.
-(—- Olhos Mortos
A brisa bate indiferente
Fria nesta noite de verão
Olhos mortos olhando o nada
Estou sozinhoA sensação de solidão
Sempre senti algo, mesmo acompanhado
Cortar as asas e voltar a me bastar
Não achei que fosse precisar de novoOuço gritos e vejo sombras
Tem alguém aí pensando em mim?
Aposto em energias ruins
Sinto as cartas do mago, do homem enforcado e da morte
Pregadas em minha face
Debochando de minha sorteAcredito no destino
Como acredito em tornar tudo bom com um sorriso
Não adianta se choro por dentro
Enterrei a esperança com minha felicidade temporária
Estou sozinhoEsta morte dos meus ídolos
Transformação de mim no meu alter ego
Criação de uma mente pouco acostumada a aceitação
Um carinho viria a calhar, até eu me enjoar
E descartar como a agulha do meu calmanteAgora é hora de ir
Ter o meu tempo para mim mesmo
Procurar um abraço que seja meu
Que eu não recuse ou faça por fazer
Eu preciso é saber lidar com o que me faz bem
Sem achar que isso me torna mais fraco
Libertar as correntes que me mostram altivo
E aceitar que não preciso estar sozinho—-)-
Musa. DCLXVI
Navegante
Sempre queremos ter um lugar para onde voltar.
-(—- Navegante
Foram dias em turbilhão
Um triângulo das bermudas
Alguns não restaram para contar histórias
Outros ainda viram suas musasTivemos horas de tensão
Confundiamo-nos ao cumprimentar
Ao escolher a melhor joia
Substituíamos a saudade pelo sonharOs tempos em que vi e víamos
Cada donzela do mar e seus cantos
Meras ilusões causadas pelo rum
Ainda sorríamos para seus encantosAcreditávamos haver um mar para onde voltar
Assim como esporadicamente tínhamos águas calmas
Queria largar essas supostas aventuras
E rir de tudo que torturou nossas almasNós sentíamos o peso do tempo
Em praias e oceanos que visitamos demais
Agora que aportei em meu novo antigo lar
Espero que não chova mais
E espero que não chova nunca mais—-)-
Musa. DCLXVI
Despedida
Quando a lealdade é menor em uma das extremidades, há de haver uma expectativa em ruína.
-(—- Despedida
Como vai, meu amigo?
De novo com aquele papo de não me toque
É embaraçoso seu jeito
Por mais que tente fingir
Conheço bem seus traços
Arrisco-me a dizer que conheço-o direitoPor que não vomita e melhora?
Sei que isso não é bem expulsável
Mas sabe como qualquer dose
Acaba com sua memória
E um cigarro com sua consideração
Grosserias não vão te livrar dessa tosseE se eu te oferecer para pagar a conta?
Comprar tua amizade novamente
Convencer outrem a tentar convencê-lo
Distrair-te em meus devaneios
Mesmo sabendo o que resolveria isto
Você sabe, não hei de fazê-loEntão, você se sente usado?
Bom, não posso mentir que não foi
Você me amou e serviu de abrigo
Não tenho direito de reclamar
Vou apenas deixar-te curtir seu “feliz para sempre”
Com um adeus, meu amigo—-)-
Musa. DCLXVI
Barreira
Não consigo mais escrever coisas infantis e puras. Acho que fui corrompido.
-(—- Barreira
Como são as quedas atenuadas pelo ar
Inevitáveis como a morte
Tive sentimentos que se foram
Em uma brisa a me aliviarComo rumo não quero mais ter
Indeciso sobre o céu e o inferno
Joguei os dados buscando conselhos
Sem nada a perderComo a lua ilumina minha cabeça
Vejo o passado e desejo seu mal
Entreguei minhas esperanças a outrem
Esperando que te esqueçaComo vem a distribuir doença
É meu gelo e minha vacina
Da sobriedade que me mantém mórbido
Seu egoísmo que nunca pensaComo as trevas engolem a luz
Meu coração degenera-se em escuridão
Para que eu possa reconstituir
A barreira que nunca pus—-)-
Musa. DCLXVI
Repúdio
“Aquele que luta com monstros deve se acautelar para não tornar-se também um. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”
Nietzsche
-(—- Repúdio
Entreguei-me aos prazeres da vida
Pode-se dizer vil a ação
Mas nunca disse que era carnal
Um orgasmo em uma conversa
Parece algo tão intelectualA gente se escreve aos moldes da evolução
Mais próximo de degeneração e regressão
Onde ‘Eu te amo’ equivale a um ‘bom dia’
Digo que nunca uso essas palavras em vão
Só quando sinto a realidade em sintoniaPor isso é difícil achar algo real
As pessoas inibem o sentimento antes de sentir
Julgam atos libidinosos como cumprimentos
Consideram carinhos e afeto abomináveis
Esquecendo do quanto pode durar um momentoAmamos tanto quanto imaginamos
Que a força do apego é mero interesse podre
Escárnio de pessoas superficiais que fomento
E com minha borracha vou apagando
Minhas rasuras e, vulgarmente, meus pensamentos—-)-
Musa. DCLXVI
Calado
Quando se coloca em cheque tudo que você só tem a perder.
-(—- Calado
Como de praxe, te encontro por acaso
Dessa vez convido-lhe para uma bebida
Distinta ocasião, visto meu gênio difícil
E faço minha intenção suficientemente percebidaVocê aceita, já sabendo que vai se arrepender
Pouco importa, às vezes nos vemos obrigados
Desvia olhares e engole em seco
A verdade dói mais quando somos culpadosEu vejo seu desconsertar e desconforto
Não vou parar para fazer média
Desabafo, tiro tudo do meu peito e derrubo em ti
Faço tudo em nome da tragédiaDe cabeça leve e em um estranho êxtase
Sorrio e tomo um soco na cara
Eu não mereci, mas quase levei calado
Confesso que é coisa raraDespeço-me de tudo que nunca quis deixar ir
Talvez com uma ponta de abandono
Desilusão em um copo de gin
Dos meus sentimentos um outonoA vida de um romântico só se completa com sofrimento
Vi como nada fui, nada sou e nada sei
Então que reparei no lado negro da lua
E ele é mais escuro que imaginei—-)-
Musa. DCLXVI
Cronologia
Deixei que a cronologia fizesse o trabalho.
-(—- Cronologia
Alguma vez que olhou pra si
Não viu nada e procurou em outrem
Transformou tudo em tragédia
Entregou-se a música
Deixou-se levar pela estrada
Afogou-se em meio sua mentira e masoquismo
Não piscou e mentiu uma lágrima
Olhou pro alto e gritou em loucura
Viu uma estrela oscilar ao seu olhar
Levou sua racionalidade lástima ao álcool
Falhou em sua maior causa
Achou que a piscina era rasa
Ficou em inércia e conheceu a gravidade
Viu que se virou pro lado errado
E apenas decidiu aguentar—-)-
Musa. DCLXVI
Lágrimas Rasas I
Porque não choramos apenas quando estamos tristes.
-(—- Lágrimas Rasas I
A noite pulsa pensamentos
Meus dedos tremem com minha imaginação
Tanta intensidade, tanto momento
Vejo-me jogado em teus encantos
Em meio aos teus perfeitos defeitos
Teu sorriso que sempre queria estar certo
E teu olhar distante em reflexão
Vejo o brincar de teu andar
Entre gargalhadas desajeitadas
Timidez de querer esconder algo belo
E a preocupação com seus silêncios
Comigo apenas a admirar
A cara enfezada
Com as bochechas apertadas para agradar
Teu aceitar ser, ouvir e estar
Nada mais e nada menos, ideal
Pois vou te dar algumas palavras
Sentidas, vividas e minhasEu queria sorrir para ti só desta vez
E te dizer que não queria mais nada nesta vida—-)-
Musa. DCLXVI